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O lado obscuro da colaboração

O conceito inovação é um termo essencialmente econômico, e na sua gênese  visa explicar os fatores que permeiam o desenvolvimento econômico de países [1].  Como uma música remixada diversas vezes ao longo do tempo, a versão original torna-se cada vez menos conhecida.  Porém despido dessa discussão conceitual é fácil identificar sua origem. A inovação alinha-se onde o aprendizado é gerado e explorado economicamente [2].

Nesse sentido, podemos compreender o processo de inovação em duas etapas macro. A primeira responsável pela aquisição e assimilação de novos conhecimentos. A segunda por sua vez, na sua transformação e exploração econômica [3]. Desta forma, fica evidente que o processo de inovação é desenvolvido em grande medida por meio de mecanismos de interação social.

A partir disso, é fácil compreender como a colaboração liga-se intimamente com a inovação. Na busca por novos ideias, empresas e empreendedores integram diversos atores ao processo de inovação visando criar algo novo. Desta forma, abordagens como cocriação e coprodução ganham destaque na atualidade [4]. Pois, além de produzir novas ideias a partir de novas perspectivas, otimiza-se o processo de aprendizado interno. Ou seja, é mais rápido colaborar com uma pessoa que conhece a fundo um determinado tema, do que aprender e internalizar o tema específico.

A colaboração é utilizada desde pequenos empreendedores desenvolvendo um canvas à grandes empresas introduzindo clientes e fornecedores no processo de desenvolvimento de novos produtos ou serviços. Porém, a colaboração tem sua base pautada em interações sociais, e esse fato pode produzir na colaboração um efeito contrário ao desejado.

Se por um lado a colaboração origina a inovação por meio de novas ideias e redução de custos para aquisição de novas informações. Por outro lado, ela pode originar ideias “menos inovadoras” ou até mesmo impedir o surgimento e aplicação de novas ideias. Esse lado obscuro da colaboração origina-se na intensidade e na forma dos relacionamentos utilizados no processo de inovação.

Para a construção e desenvolvimento de uma relação, seja duradoura ou não, em alguma medida os indivíduos compartilham determinados aspectos cognitivos, estruturais e relacionais [5]. Por exemplo, é muito mais fácil integrar ao processo de inovação indivíduos de faixas etárias homogêneas do que assimétricas. Ou até mesmo colaborar com indivíduos de uma mesma profissão, do que profissões distintas.

Assim, ao iniciarmos um processo de colaboração, existe um esforço de comunicação. Em grupos heterogêneos, esse esforço torna-se maior, pois é preciso além de criar uma base de comunicação em comum, recorrentemente é preciso gerenciar eventuais ruídos. Exemplo, uma reunião de briefing com representantes de diversas áreas da empresa tende a se tornar mais caótica, quando comparada a uma reunião desenvolvida somente com os representantes da área de marketing.

Assim, é natural promovermos o processo de colaboração com indivíduos que possuem similaridade e afinidade ao tema. Exemplo, é muito mais provável você pedir para um colega de trabalho revisar o seu “job”, do que uma pessoa fora da empresa. Nesse caso, talvez inconscientemente ao pedir para um colega de trabalho o feedback, você evitará esforços para explicar questões elementares que seria necessário caso enviasse para uma pessoa fora do contexto de trabalho.

Desta forma, tendemos colaborar com pessoas mais próximas e com mais afinidade. Esse processo ao longo do tempo, pode fazer com que ideias foras da sua rede de relacionamento seja ignorada [5]. Esse lado obscuro da colaboração, muito vezes é escondido pela alta produtividade entre indivíduos com maiores afinidades. Pois a congruência  entre os indivíduos torna a comunicação mais veloz, mas as ideias originadas tendem a ser “menos inovadoras”.

Por outro lado, ao diferenciarmos o conceito inovação, podemos compreender essa relação em dois espectros: A Inovação radical e a inovação incremental. Respectivamente a primeira relaciona-se essencialmente na criação de um novo produto ou serviço. A segunda, poderíamos compreende-la como uma melhoria ou aprimoramento em algo já existente [6].  Assim, para jogarmos luz a esse lado obscuro da colaboração, devemos pensar no nível de inovatividade que o projeto exige para que  consequentemente, possamos desenvolver a melhor estratégia de colaboração.

Em inovações radicais, colaborar com indivíduos com menor afinidade e congruência social, pode ser uma forma de coletar e unir diferentes perspectivas afim de criar algo novo. Para as inovações incrementais, grupos com maior afinidade e proximidade pode gerar performance tanto na geração de ideias quanto no desenvolvimento.

Nesse sentido, é possível compreender uma relação cíclica entre radical e incremental. Se no primeiro momento para criar algo novo, você precisa de colaborações fora da sua rede de relacionamento. No segundo, você demanda de interações de dentro para melhorar  o produto ou serviço continuamente. Desta forma, após a introdução de uma inovação no mercado, é necessário conciliar tanto o seu aprimoramento por meio de colaborações com maior afinidade, quanto incorporar inovações radicais por meio de colaborações heterogêneas e menos duradouras.

Algumas referências utilizadas

[1] SCHUMPETER, Joseph A. Teoria do desenvolvimento econômico. 1961.
[2] KLINE, Stephen J.; ROSENBERG, Nathan. An overview of innovation. In: Studies On Science And The Innovation Process: Selected Works of Nathan Rosenberg. 2010. p. 173-203.
[3] TODOROVA, Gergana; DURISIN, Boris. Absorptive capacity: Valuing a reconceptualization. Academy of management review, v. 32, n. 3, p. 774-786, 2007.
[4] VOORBERG, William H.; BEKKERS, Viktor JJM; TUMMERS, Lars G. A systematic review of co-creation and co-production: Embarking on the social innovation journey. Public Management Review, v. 17, n. 9, p. 1333-1357, 2015.
[5] GRANOVETTER, Mark S. The strength of weak ties. In: Social networks. Academic Press, 1977. p. 347-367.
[6] ROTHWELL, Roy. Towards the fifth-generation innovation process. International marketing review, v. 11, n. 1, p. 7-31, 1994.

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